Recid

  • Aumentar tamanho da fonte
  • Tamanho da fonte padrão
  • Diminuir tamanho da fonte
Textos
Qui, 24 de Novembro de 2011 18:17

A RETOMADA DO TRABALHO DE BASE

Escrito por Ranulfo Peloso da Silva

Ranulfo Peloso da Silva/ CEPIS, SP

  

1. INTRODUÇÃO

“Achavam-se agrupados e presos à terra, por uma raiz comum, como uma moita de bambu. E como esse vegetal, inclinavam-se e dobravam-se. Mas, sobreviviam às maiores tempestades”.

(Morris West, O embaixador, 1985)

  

A grande marca da organização popular é sua presença e enraizamento na vida da população, animando pessoas e grupos a se organizarem para buscar solução de seus

problemas.

O antigo e permanente interesse dos trabalhadores de repartir o pão e o poder, mesmo que não seja totalmente consciente, é derrubar a velha pirâmide e construir uma

sociedade sem dominação.

Miguel Arroyo

A educação no Brasil está num momento muito rico hoje. Entretanto, a educação popular foi por muito tempo marginalizada pela escola oficial. É um movimento que começa no final da década de 50, se estende pela de 60 e nunca foi esquecida fora da escola (movimentos de Igreja, educação de jovens e adultos, movimentos sociais urbanos e rurais). Ou seja: há uma história de Educação Popular. Não estamos começando do zero. Assim como temos uma herança de luta neste país, temos também uma herança cultural, uma verdadeira pedagogia de luta, transformação, libertação.

Paulo Freire é símbolo disso tudo. Faz parte desse movimento histórico-educativo. Toda a América Latina considera-o um dos nomes mais importantes e renovadores na área de educação nos últimos 50 anos. Cuja tarefa pedagógica tem a ver com o título deste encontro: “Formar para Transformar”. Só é possível entender Paulo Freire dentro deste contexto histórico.

No período que vai dos fins de 50/pré-64, Paulo foi o único pedagogo que soube captar aquele momento. Teve uma intuição da dimensão pedagógica daquele momento (isto é que é ser pedagogo). Ele sempre tinha muito a aprender, escutar, dialogar. Redescobrí-lo na prática atual é a única forma de não esquecer sua prática, seu pensamento. Paulo não gostava de ser lembrado como mito, mas como um educador concreto, histórico.

Se queremos ser educadores neste momento histórico brasileiro, precisamos captar a sua dimensão pedagógica. Temos que aprender com as experiências concretas. Lembro-me que, pouco antes de morrer, Paulo Freire nos chamou para um seminário onde exporíamos a experiência da Escola Plural (BH), da Escola Cidadã (P.Alegre) e as experiências que estavam sendo desenvolvidas em Brasília. Ele, sentado na primeira fila, anotava tudo. Paulo sempre achou que tinha muito a aprender; sempre respeitava o trabalho dos outros. Sempre chamava outros educadores para dialogar, nunca para dizer isto está certo, isto está errado.

Pensando na tarefa que me foi dada, falar sobre “Paulo Freire e a Construção do Projeto Popular para o Brasil”, organizei minha exposição em 9 pontos:

  1. Paulo Freire não inventou um método. Educação para ele é muito mais que isto. Ele não inventou uma chave, um conjunto de técnicas, uma ferramenta, uma muleta para responder à questões do tipo: me ensina a fazer, como fazer, por onde começar, onde chegar?! Seu pensamento não é uma didática, uma metodologia, uma receita que eu possa seguir ou não.
  1. Educação para Paulo Freire é uma conduta; um conjunto de valores pedagógicos; é um compromisso; uma postura. É isto que precisamos refletir, se queremos construir um Projeto Popular para o Brasil: que valores nortearão nossa prática pedagógica?

Paulo foi na contra-mão do tecnicismo, do que vinha acontecendo na área de educação. Ele não admitia educação como método ou técnica neutra. Ele nega esta neutralidade. Para ele, educação é ato político.

Temos que construir uma nova cultura pedagógica que reinterprete o povo brasileiro.

A cultura política do Brasil há 500 anos foi sempre fazer da educação uma grande bandeira, mas sempre a deixou reduzida. Para os dominantes, o povo é analfabeto, é ignorante, é bárbaro; e a educação viria então para resolver estes “problemas”. Esta cultura política dominante invadiu a cultura pedagógica.

Uma prova concreta de que esta cultura ainda permanece foi uma reportagem que saiu outro dia a respeito da regulamentação de venda de armas. Estas só deveriam ser vendidas para pessoas instruídas, informadas que vão saber usá-las e não para o povo ignorante, bárbaro, perigoso. Esta é a idéia que está posta na sociedade.

Paulo Freire sempre se contrapôs a esta cultura política e pedagógica; a esta idéia de educação do bárbaro para “conter” a violência (educação para domá-los, assim como se faz com os cavalos). Isto não é educação, é adestramento. E muitos professores pensam assim: o povo carente é ignorante, sem cultura, sem educação, não tem valores, são bárbaros, são perigosos. O problema da miséria está em tornar o povo violento, por isso ela incomoda; não pelo que há de desumano nela própria, mas pelas suas conseqüências. Isto já era pregado por Adam Smith, o pai do liberalismo no mundo: o povo precisa ser educado, caso contrário ele representa perigo. É a idéia de Estado tutelando o povo através da educação.

Paulo Freire se contrapõe a esta cultura elitista sobre o povo. Amargou 16 anos no exílio porque ousava dizer como vocês “viva o povo brasileiro”. Ele tinha uma visão positiva do povo e isto era e é subversivo, perigoso para a classe dominante.

Aquela idéia arraigada nos contamina. A esquerda fala em educar para a cidadania consciente. Tem aí uma idéia de que o povo tem falsa consciência ou que ele é “lamentavelmente inconsciente”. Esta é uma forma “progressista” de se aproximar dessa cultura política da direita. Justificamos porque achamos que as pessoas simples estão dominadas pela cultura ideológica dominante. Nossa função de esquerda ilustrada, iluminada, consciente é então mostrar os caminhos para os ignorantes, como se fôssemos donos da verdade. Consciência, em Paulo Freire é algo muito mais totalizante.

  1. Paulo Freire não tinha uma visão conteudista de educação, por isso a academia não o   suporta. A idéia de transmissão de “conteúdos críticos” não ultrapassa a visão bancária de educação. Para ele educar não é aplicar conteúdos e lições às pessoas, como se fossem depósitos em conta bancária, onde se deposita trocados de conhecimentos.

Mudamos os conteúdos, mas mantemos a postura. Isto é errado! Trocamos as mentiras da burguesia pelas nossas verdades, nossos “saberes revolucionários”.

É por isso que a academia não suporta Paulo Freire, porque ela é símbolo e proprietária dos “conhecimentos historicamente acumulados”. Transmitir conhecimentos científicos é instrução, informação, não educação. Para Paulo Freire, educação é outra coisa. Busquemos em Paulo Freire uma nova concepção de povo, um novo olhar diante dele. Ele reinterpreta radicalmente o povo, o que não é fácil. Por tudo isso Paulo Freire é considerado lá fora (do Brasil), o educador mais importante da segunda metade do   século XX.

  1. Educar é uma relação entre pessoas, sobretudo uma relação entre gerações. O educador tem que ser um exemplo. Paulo Freire é mais forte pelo que ele foi do que pelo que ele disse ou escreveu. O importante era sua forma de relacionar-se com as pessoas, com os educandos, era o respeito pelo outro.

Ser educador, era o modo de ser de Paulo Freire (não apenas estar professor). Sua figura recuperou essa dimensão permanente da prática educativa.

Vão ao povo como gente, sejam vocês mesmos, estejam abertos ao diálogo, aprendam com o povo. Este deve ser o “método” de construção do Projeto Popular para o Brasil.

Não leve ao povo uma mensagem, seja essa mensagem.

Quais são as conseqüências deste pensamento?

  1. o educador tem que crescer como sujeito (ninguém educa se não é educado) e a educação é uma empreitada a pelo menos dois; buscar caminhar junto com o povo;
  2. a conduta é reconhecer que o povo (mesmo a criança) é sujeito; às vezes nós somos muito mais contaminados pelas elites do que o povo; o povo tem saberes, cultura, valores (sem exaltação basista);
  3. temos que aprender a reconhecer, captar o saber popular, esta é a questão; o que é diferente de mostrar caminhos (estamos com a cabeça cheia de lenines, cristos e outros mais, cuidado!); o desafio é buscar caminhos, alternativas, trilhas, projetos juntos, de mãos dadas com o povo e não pegá-lo pela mão e levá-lo pelos caminhos que nós escolhemos;
  4. reconhecer o povo como sujeito; ele tem saberes, ele não é tábua rasa ou tábua cheia de besteiras colocadas pela ideologia dominante (minimizem os efeitos dos meios de comunicação)
  1. Como captar as redes sociais em que estes saberes são construídos e são reproduzidos? Este é o desafio! Em qualquer comunidade, bairro há uma rede de trocas e há mestres, mas o importante não são os saberes individuais, mas as redes sociais através das quais estão fortemente amarrados valores, identidades.[2]

O povo não é desestruturado. Há um tecido social pedagógico-educativo, onde seres humanos se constróem, se destróem, constróem suas identidades, seus valores. Temos que entender os pontos de encontro destas redes, não para destruí-los, mas para reforçá- los, para construirmos o Projeto Popular.

  1. Paulo Freire não foi professor isolado. Ele sempre apostou no caráter coletivo do projeto educativo. O ser humano não é como uma semente de mangueira que jogada ao solo, tendo sol e chuva, se transformará numa grande árvore. O ser humano só se educa em relação com outros seres humanos.

O que fazer então para que o Projeto Popular dê certo?

  1. troca de experiências (mostrar o que já se faz, o que já somos, as nossas lutas)
  2. temos importantes sujeitos coletivos educativos (os movimentos sociais); temos que explorar suas potencialidades, torná-los cada vez mais pedagógicos[3]; o MST é um grande pedagogo (qual a sua pedagogia?)
  3. temos que nos perguntar: qual é a pedagogia do movimento onde atuo? Ou somos meros franco-atiradores?!
  4. não podemos perder a dimensão pedagógica do Partido (Gramsci), do sindicato; sem o que não há capacidade de construir um projeto coletivo, tão pouco uma outra cultura, outra identidade popular.
  1. Compreender o caráter ritual de todo projeto educativo (educação e cultura têm que ser recuperadas como um vínculo estreito). “O ser humano aprende a ser humano, aprendendo os significados que outros humanos dão à vida, à terra, ao amor.” Temos que partir do significado que a terra tem para quem nela trabalha (daí a importância dos rituais, dos símbolos, da mística). Isto explora o que há de mais forte no processo educativo, ou seja , a cultura popular.

Por que o MST incomoda tanto? É pelos gestos que ele faz. Isto é pedagógico, não os conteúdos (aprender o ABC na cartilha da liberdade e não o contrário).

  1. Não esquecer a diversidade dos sujeitos; os sujeitos não são iguais (trabalhadores são homens, mulheres, negros, índios, brancos, jovens, adultos). A relação capital x trabalho sozinha hoje, não dá conta do processo educativo. Na mesma fronteira onde se defende direitos iguais, temos que respeitar a diversidade. Há muitas lutas resultantes desta diversidade na história recente de nosso país. Paulo Freire é representante de uma época onde surgiram vários movimentos sociais que têm símbolos fortes, exemplos de luta por liberdade, emancipação (Florestan Fernandes, Zumbi, Che Guevara, etc); lembrá-los significa recuperar algo fundamental; é fazer educação colada com grandes lutas, grandes ideais. A Pedagogia do Oprimido é muito atual, trata da dramaticidade deste momento histórico; coloca o ser humano como centro na busca de seus direitos. Só tem sentido um projeto popular em cima da busca dos direitos humanos, da radicalidade dos valores socialistas, de emancipação humana, da igualdade. O projeto de Paulo Freire é um projeto dialogal. O que interessa são as grandes lutas, grandes questões humanas que influenciam as vivências cotidianas dos trabalhadores. “Todo projeto educativo tem que estar enraizado no passado e nas lutas por direitos”. Não estamos inventando agora a pedagogia popular. Nas músicas do MST há uma recuperação deste movimento educativo por liberdade, emancipação. Só se aprende o ABC na cartilha da liberdade . Isto é muito forte no pensamento de Paulo Freire.
  1. Levar em conta a memória coletiva (que se transmite por gerações); quem são os   mestres da memória no meio do povo? (que não depende da rede globo, nem da escola, nem de nós); “se eu deixo de lembrar, deixo de ser”; para a burguesia o passado não importa (“prepara para o futuro”, é só isso que eles pensam) porque o presente é muito       duro, por isso a burguesia não o quer encarar, tão pouco o passado. Não podemos zerar a história e começar agora como se fôssemos mensageiros da   luz. Não devemos dar a impressão de que antes de chegarmos tudo era negativo.

Temos que dar dimensão de continuidade histórica ao nosso projeto.

Há muito mais positividade no povo brasileiro do que pensamos; a esquerda perdeu uma década falando do neoliberalismo (quando na verdade ele nada tem de liberal, mas sim do que existe de mais retrógrado na sociedade) e não buscou no povo o que há de positivo em suas lutas pela sobrevivência. Há muitas possibilidades no povo, nós é que não sabemos enxergar. Nos preocupamos mais em ver as negativades da elite e esquecemos de ver as positividades do povo.

Pra que educar? Exigem 2º grau para varrer rua. Este é o projeto do mercado.

Enquanto as políticas educacionais do MEC distraem os professores dos problemas fundamentais, os Movimentos Sociais colocam a educação vinculada às grandes questões, às lutas populares. Aquele é o projeto do mercado, este é o projeto popular. O projeto pedagógico popular têm que descobrir o tecido social educativo, onde as gerações aprendem umas com as outras. O povo tem projeto de futuro para si, para seus filhos. É preciso dialogar com ele, descobrir seus sonhos. Ele tem memória. Quem são seus contadores de história? O povo comemora, celebra a memória coletiva.

Todo projeto educativo tem que ser um projeto de humanização; isto implica reconhecer a desumanização, ainda que seja uma dolorosa constatação.

Juntar os cacos triturados pela injustiça, fome, provocadas pela brutalidade do capitalismo.

Buscar a viabilização da sua humanização no contexto real, concreto, do Brasil.

Este é o desafio do Projeto Popular:

RECUPERAR A HUMANIDADE ROUBADA DO POVO.


RESPOSTAS AOS BLOCOS DE QUESTÕES LEVANTADOS PELAS BRIGADAS

  1. Como identificar as redes sociais educativas?
  2. Olhando pra vida de vocês mesmos. Não esquecer o que cada um é. Como a filha aprendeu a cuidar de seu filho? Temos que ver as pessoas, não apenas olhá-las. A mãe conta histórias para os filhos na hora de fazê-los dormir. Eles aprendem sua memória, sua história. A rede social educativa é constituída pela família, a escola, a igreja, as festas, as lutas, os sindicatos, com os mestres populares que ensinam práticas de saúde (se o povo dependesse dos serviços públicos, estaria morto), etc.

 

  1. Como valorizar a cultura popular sem cair no basismo?
  2. Nem basismo, nem vanguarda. A esquerda têm uma tentação ao vanguardismo, à função de condutor, pastores das massas, as luzes na escuridão. Temos que ter paciência pedagógica. Partir da experiência concreta para, junto com o povo (não na frente, nem atrás idolatrando-o), superá-la, através do desvelamento da realidade opressora. Lutar pela garantia de direitos sociais já, não apenas após a revolução, a tomada do poder. Paulo Freire nunca idolatrou o saber dos excluídos. Sempre foi realista. Trabalhou com o presente (o que é possível hoje?) dentro de um projeto maior. Tenho direito a ser mais humano hoje, não posso esperar o futuro. Quando se nega o passado e o presente, estamos adiando o futuro.

 

  1. Como educar sem levar em conta os conteúdos científicos?
  2. R. A idéia de conteúdo descolado da vida, das lutas concretas, está enraizado na escola e nos contagia: “as pessoas se realizam na medida em que aprendem lições”. Adote um aluno, esta é a proposta do comunidade solidária, “dos amigos da escola”. Educação não é isto. A criança aprende em todos os lugares. O problema não é toda criança na escola. Se ela ficar reduzida a isto, vai sair cheia de “conteúdos científicos”, porém ignorante das coisas do mundo, da vida. A escola nos faz cidadãos? O projeto pedagógico-popular não será professoral. Professor ensina conteúdos de uma grade curricular sem que os alunos se quer saibam pra que servem. Cuidado com esta pedagogia dos conteúdos acadêmicos! Os conteúdos são apenas uma parte. O nosso projeto será uma pedagogia da memória coletiva, da comemoração, dos rituais, dos símbolos e dos conteúdos. A nossa não pode ser uma pedagogia bancária. A pedagogia de Paulo Freire (redes sociais, culturais, simbólicas) não cabe dentro de uma sala de aula. Veja que não estou excluindo a necessidade de leitura. Temos que aprender sobre a flora, a fauna, a história, antropologia, teoria cultural. Mas isto não é tudo, e elas não estão restritas aos livros, à sistematização escrita.

 

  1. Como enfrentar as outras redes (globo, igrejas universais do reino de Deus, etc)?
    1. Não pense que a pedagogia destas redes vai muito fundo, porque elas não partem do processo de desumanização e ignoram a cultura popular. A burguesia sonha dominar o povo, através dos preconceitos, da velha imagem, da destruição da auto-estima. Mas isto não é de todo verdade: não superestimem as redes da burguesia. O povo não é uma tábua rasa. Os negros sabem que o que “tierra nostra” e “muralha” estão mostrando não é história real. Estamos muito impregnados do que falou Althusser, isto nos atrapalha. Enxergamos o povo desfigurado, filho da rede globo, da igreja universal por causa de nossa concepção vanguardista. O povo não foi destruído pela ideologia dominante, não é marionete dela. São excluídos, introjetam a imagem do opressor, mas não é só isto. O povo resiste, redefine a própria imagem, vai reconstruindo sua imagem quebrada, mas reconstrói. Temos que partir deste olhar.

 

  1. Como conciliar militância com cuidar de si (sacrifício pessoal, compromissos político)?
    1. Há uma diferença entre o profissional da educação, competente, eficiente, transmissor de conteúdos “frios” e um educador. Este se envolve, age como gente, se relaciona com o educando. Ainda mais um educador popular, comprometido com a construção de um projeto coletivo, com intencionalidade política clara. Todo educador é político e fazer educação popular é como uma cachaça que a gente quer sempre mais. O educador popular deve ser todo compromisso (o que não é fácil).


[1] Miguel Arroyo, “mineiro da Espanha” (está há 40 anos no Brasil) é professor aposentado da UFMG/Faculdade de Educação; foi Secretário de Educação Adjunto do Governo Patrus em Belo Horizonte de 93 a 96, quando desenvolveu na rede municipal a proposta de Escola Plural; presta assessoria a projetos de educação aos governos populares; acompanha de perto o Setor de Educação do MST; tem muitos livros publicados; assumiu em 1999 a Cátedra Paulo Freire na PUC/SP.

[2] Ler “O Tecido da Rede” (ou algo parecido), poema de Carlos Rodrigues Brandão.

[3] Ler o livro “Escola é mais que escola na Pedagogia do Movimento Sem Terra”, da Roseli Caldart.

Seg, 05 de Dezembro de 2011 17:46

A miséria do "novo desenvolvimentismo"

Escrito por Daiani Cerezer

José Luís Fiori é professor titular do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da UFRJ, e autor do livro "O Poder Global", da Editora Boitempo, 2007.


O capitalismo só triunfa quando se identifica com o estado, quando é o estado". Fernand Braudel, "O Tempo do Mundo", Editora Martins Fontes, SP, p: 34.

O "debate desenvolvimentista" latino-americano não teria nenhuma especificidade se tivesse se reduzido à uma discussão macroeconômica entre "ortodoxos", neo-clássicos ou liberais, e "heterodoxos", keynesianos ou estruturalistas. Na verdade, ele não teria existido se não fosse por causa do Estado, e da discussão sobre a eficácia ou não da intervenção estatal para acelerar o crescimento econômico, por cima das "leis do mercado". Até porque, na América Latina como na Ásia, os governos desenvolvimentistas sempre utilizaram políticas ortodoxas, segundo a ocasião e as circunstâncias, e o inverso também se pode dizer de muitos governos europeus ou norte-americanos ultra-liberais ou conservadores que utilizaram em muitos casos, políticas econômicas de corte keynesiano ou heterodoxo. O pivô de toda a discussão e o grande pomo da discórdia sempre foi o Estado e a definição do seu papel no processo do desenvolvimento econômico.

Apesar disto, depois de mais de meio século de discussão, o balanço teórico é decepcionante. De uma forma ou outra a "questão do Estado" sempre esteve presente, nos dois lados desta disputa, que acabou sendo mais ideológica do que teórica. Mas o seu conceito foi sempre impreciso, atemporal e ahistórico, uma espécie de "ente" lógico e funcional criado intelectualmente para resolver problemas de crescimento ou de regulação econômica. Desenvolvimentistas e liberais sempre compartilharam a crença no poder demiúrgico do Estado, como criador ou destruidor da boa ordem econômica, mas atuando em todos os casos, como um agente externo à atividade econômica.

Um agente racional, funcional e homogêneo, capaz de construir instituições e formular planos de curto e longo prazo orientados por uma idealização do modelo dos "capitalismos tardios" ou do estado e desenvolvimento anglo-saxão. E todos olhavam negativamente para os processos de monopolização e de associação do poder com o capital, que eram vistos como desvios graves de um "tipo ideal" de mercado competitivo que estava por trás da visão teórico dos desenvolvimentistas tanto quanto dos liberais. Além disso, todos trataram os Estados latino-americanos como se fossem iguais e não fizessem parte de um sistema regional e internacional único, desigual, hierarquizado, competitivo e em permanente processo de transformação. E mesmo quando os desenvolvimentistas falaram de Estados centrais e periféricos, e de Estados dependentes, falavam sobretudo de sistema econômico mundial que tinha um formato bipolar relativamente estático, onde as lutas de poder entre os Estados e as nações ocupavam um lugar bastante secundário.

No fim do século XX, a agenda neoliberal reforçou um viés da discussão que já vinha crescendo desde o período desenvolvimentista: o deslocamento do debate para o campo da macroeconomia. Como volta a acontecer com o chamado "neo-desenvolvimentismo" que se propõe inovar e construir uma terceira via (uma vez mais), "entre o populismo e a ortodoxia". Como se tratasse de uma gangorra que ora aponta para o fortalecimento do mercado, ora para o fortalecimento do Estado.

Na prática, o "neo-desenvolvimentista" acaba repetindo os mesmos erros teóricos do passado e propondo um conjunto de medidas ainda mais vagas e gelatinosas do que já havia sido a ideologia nacional-desenvolvimentista dos anos 50. Passado a limpo, trata-se de um pastiche de propostas macroeconômicas absolutamente ecléticas, e que se propõem fortalecer, simultaneamente, o Estado e o mercado; a centralização e a descentralização; a concorrência e os grandes "campeões nacionais"; o público e o privado; a política industrial e a abertura; e uma política fiscal e monetária, que seja ao mesmo tempo ativa e austera. E finalmente, com relação ao papel do estado, o "neo-desenvolvimentismo" propõe que ele seja recuperado e fortalecido mas não esclarece em nome de quem, para quem e para quê, deixando de lado a questão central do poder, e dos interesses contraditórios das classes e das nações.

Neste sentido, fica ainda mais claro que o desenvolvimentismo latino-americano sempre teve um parentesco maior com o keynesianismo e com "economia do desenvolvimento" anglo-saxônica, do que com o nacionalismo econômico e o anti-imperialismo, que são a mola mestra do desenvolvimento asiático. E que, além disto, os desenvolvimentistas latino-americanos sempre compartilharam com os liberais a concepção econômica do Estado do paradigma comum da economia política clássica, marxista e neo-clássica. Esse paradoxo explica, aliás, a facilidade teórica com que se pode passar de um lado para o outro, dentro do paradigma líbero-desenvolvimentista, sem que de fato se tenha saído do mesmo lugar.

Página 1 de 11