A Pontifícia Universidade Católica de Goiás, através da Pró Reitoria de Graduação promove o 7° Simpósio da Unidade Acadêmico Administrativa de Educação da PUC de Goiás nos dias 28, 29 e 30 de novembro de 2011, intitulado "Educação Popular: princípios e práticas".
O Simpósio de Educação da Unidade Acadêmico Administrativa de Educação - EDU da PUC Goiás, em 2011, encontra-se em sua 7ª edição. Há muito a comemorar: 62 anos do Curso de Pedagogia; 31 anos da Coordenação de Pós Graduação Lato Sensu - CPGLS; 30 anos do Programa de Educação e Cidadania - PEC e 12 anos do Programa de Pós Graduação em Educação - PPGE. Neste contexto, há que se destacar a trajetória do Departamento de Educação da PUC Goiás na construção de um projeto de Educação e de Sociedade comprometido com a compreensão e a transformação da sociedade.
4 a 6/11/11 – João Pessoa/PA.
Porto Alegre, 09 de novembro de 2011.
Prezados educadores e educadoras da RECID/PARAÍBA
A Educação Popular vem se definindo basicamente como uma prática pedagógica-política. Quer dizer, como uma prática social que, trabalhando fundamentalmente com o conhecimento, tem uma intencionalidade e um objetivo político. Dessa maneira a EP se firma ao mesmo tempo como uma forma renovada de fazer política e uma forma alternativa da fazer educação (TORRES, 1988, p. 17).
A educação no Brasil está num momento muito rico hoje. Entretanto, a educação popular foi por muito tempo marginalizada pela escola oficial. É um movimento que começa no final da década de 50, se estende pela de 60 e nunca foi esquecida fora da escola (movimentos de Igreja, educação de jovens e adultos, movimentos sociais urbanos e rurais). Ou seja: há uma história de Educação Popular. Não estamos começando do zero. Assim como temos uma herança de luta neste país, temos também uma herança cultural, uma verdadeira pedagogia de luta, transformação, libertação.
Paulo Freire é símbolo disso tudo. Faz parte desse movimento histórico-educativo. Toda a América Latina considera-o um dos nomes mais importantes e renovadores na área de educação nos últimos 50 anos. Cuja tarefa pedagógica tem a ver com o título deste encontro: “Formar para Transformar”. Só é possível entender Paulo Freire dentro deste contexto histórico.
No período que vai dos fins de 50/pré-64, Paulo foi o único pedagogo que soube captar aquele momento. Teve uma intuição da dimensão pedagógica daquele momento (isto é que é ser pedagogo). Ele sempre tinha muito a aprender, escutar, dialogar. Redescobrí-lo na prática atual é a única forma de não esquecer sua prática, seu pensamento. Paulo não gostava de ser lembrado como mito, mas como um educador concreto, histórico.
Se queremos ser educadores neste momento histórico brasileiro, precisamos captar a sua dimensão pedagógica. Temos que aprender com as experiências concretas. Lembro-me que, pouco antes de morrer, Paulo Freire nos chamou para um seminário onde exporíamos a experiência da Escola Plural (BH), da Escola Cidadã (P.Alegre) e as experiências que estavam sendo desenvolvidas em Brasília. Ele, sentado na primeira fila, anotava tudo. Paulo sempre achou que tinha muito a aprender; sempre respeitava o trabalho dos outros. Sempre chamava outros educadores para dialogar, nunca para dizer isto está certo, isto está errado.
Pensando na tarefa que me foi dada, falar sobre “Paulo Freire e a Construção do Projeto Popular para o Brasil”, organizei minha exposição em 9 pontos:
Paulo foi na contra-mão do tecnicismo, do que vinha acontecendo na área de educação. Ele não admitia educação como método ou técnica neutra. Ele nega esta neutralidade. Para ele, educação é ato político.
Temos que construir uma nova cultura pedagógica que reinterprete o povo brasileiro.
A cultura política do Brasil há 500 anos foi sempre fazer da educação uma grande bandeira, mas sempre a deixou reduzida. Para os dominantes, o povo é analfabeto, é ignorante, é bárbaro; e a educação viria então para resolver estes “problemas”. Esta cultura política dominante invadiu a cultura pedagógica.
Uma prova concreta de que esta cultura ainda permanece foi uma reportagem que saiu outro dia a respeito da regulamentação de venda de armas. Estas só deveriam ser vendidas para pessoas instruídas, informadas que vão saber usá-las e não para o povo ignorante, bárbaro, perigoso. Esta é a idéia que está posta na sociedade.
Paulo Freire sempre se contrapôs a esta cultura política e pedagógica; a esta idéia de educação do bárbaro para “conter” a violência (educação para domá-los, assim como se faz com os cavalos). Isto não é educação, é adestramento. E muitos professores pensam assim: o povo carente é ignorante, sem cultura, sem educação, não tem valores, são bárbaros, são perigosos. O problema da miséria está em tornar o povo violento, por isso ela incomoda; não pelo que há de desumano nela própria, mas pelas suas conseqüências. Isto já era pregado por Adam Smith, o pai do liberalismo no mundo: o povo precisa ser educado, caso contrário ele representa perigo. É a idéia de Estado tutelando o povo através da educação.
Paulo Freire se contrapõe a esta cultura elitista sobre o povo. Amargou 16 anos no exílio porque ousava dizer como vocês “viva o povo brasileiro”. Ele tinha uma visão positiva do povo e isto era e é subversivo, perigoso para a classe dominante.
Aquela idéia arraigada nos contamina. A esquerda fala em educar para a cidadania consciente. Tem aí uma idéia de que o povo tem falsa consciência ou que ele é “lamentavelmente inconsciente”. Esta é uma forma “progressista” de se aproximar dessa cultura política da direita. Justificamos porque achamos que as pessoas simples estão dominadas pela cultura ideológica dominante. Nossa função de esquerda ilustrada, iluminada, consciente é então mostrar os caminhos para os ignorantes, como se fôssemos donos da verdade. Consciência, em Paulo Freire é algo muito mais totalizante.
Mudamos os conteúdos, mas mantemos a postura. Isto é errado! Trocamos as mentiras da burguesia pelas nossas verdades, nossos “saberes revolucionários”.
É por isso que a academia não suporta Paulo Freire, porque ela é símbolo e proprietária dos “conhecimentos historicamente acumulados”. Transmitir conhecimentos científicos é instrução, informação, não educação. Para Paulo Freire, educação é outra coisa. Busquemos em Paulo Freire uma nova concepção de povo, um novo olhar diante dele. Ele reinterpreta radicalmente o povo, o que não é fácil. Por tudo isso Paulo Freire é considerado lá fora (do Brasil), o educador mais importante da segunda metade do século XX.
Ser educador, era o modo de ser de Paulo Freire (não apenas estar professor). Sua figura recuperou essa dimensão permanente da prática educativa.
Vão ao povo como gente, sejam vocês mesmos, estejam abertos ao diálogo, aprendam com o povo. Este deve ser o “método” de construção do Projeto Popular para o Brasil.
Não leve ao povo uma mensagem, seja essa mensagem.
Quais são as conseqüências deste pensamento?
O povo não é desestruturado. Há um tecido social pedagógico-educativo, onde seres humanos se constróem, se destróem, constróem suas identidades, seus valores. Temos que entender os pontos de encontro destas redes, não para destruí-los, mas para reforçá- los, para construirmos o Projeto Popular.
O que fazer então para que o Projeto Popular dê certo?
Por que o MST incomoda tanto? É pelos gestos que ele faz. Isto é pedagógico, não os conteúdos (aprender o ABC na cartilha da liberdade e não o contrário).
Temos que dar dimensão de continuidade histórica ao nosso projeto.
Há muito mais positividade no povo brasileiro do que pensamos; a esquerda perdeu uma década falando do neoliberalismo (quando na verdade ele nada tem de liberal, mas sim do que existe de mais retrógrado na sociedade) e não buscou no povo o que há de positivo em suas lutas pela sobrevivência. Há muitas possibilidades no povo, nós é que não sabemos enxergar. Nos preocupamos mais em ver as negativades da elite e esquecemos de ver as positividades do povo.
Pra que educar? Exigem 2º grau para varrer rua. Este é o projeto do mercado.
Enquanto as políticas educacionais do MEC distraem os professores dos problemas fundamentais, os Movimentos Sociais colocam a educação vinculada às grandes questões, às lutas populares. Aquele é o projeto do mercado, este é o projeto popular. O projeto pedagógico popular têm que descobrir o tecido social educativo, onde as gerações aprendem umas com as outras. O povo tem projeto de futuro para si, para seus filhos. É preciso dialogar com ele, descobrir seus sonhos. Ele tem memória. Quem são seus contadores de história? O povo comemora, celebra a memória coletiva.
Todo projeto educativo tem que ser um projeto de humanização; isto implica reconhecer a desumanização, ainda que seja uma dolorosa constatação.
Juntar os cacos triturados pela injustiça, fome, provocadas pela brutalidade do capitalismo.
Buscar a viabilização da sua humanização no contexto real, concreto, do Brasil.
Este é o desafio do Projeto Popular:
RECUPERAR A HUMANIDADE ROUBADA DO POVO.
RESPOSTAS AOS BLOCOS DE QUESTÕES LEVANTADOS PELAS BRIGADAS
[1] Miguel Arroyo, “mineiro da Espanha” (está há 40 anos no Brasil) é professor aposentado da UFMG/Faculdade de Educação; foi Secretário de Educação Adjunto do Governo Patrus em Belo Horizonte de 93 a 96, quando desenvolveu na rede municipal a proposta de Escola Plural; presta assessoria a projetos de educação aos governos populares; acompanha de perto o Setor de Educação do MST; tem muitos livros publicados; assumiu em 1999 a Cátedra Paulo Freire na PUC/SP.
[2] Ler “O Tecido da Rede” (ou algo parecido), poema de Carlos Rodrigues Brandão.
[3] Ler o livro “Escola é mais que escola na Pedagogia do Movimento Sem Terra”, da Roseli Caldart.
Paulo Freire
(adaptação didática para circulação interna)
APRESENTAÇÃO
Gostaria de iniciar dizendo que nem sempre cabe uma palestra sobre método. O que ensina a gente é fazer coisas e ler. O fundamental é fazer, é lançar-se numa prática e ir aprendendo-reaprendendo, criando-recriando, com o povo. Isso é que ensina a gente. Mas, ajuda muito bater um papo com quem tem prática, com quem já teve prática e com quem tem uma fundamentação teórica, à propósito da experiência. Nesse olhar uma assessoria tem sentido. Mas, o indispensável é fazer. Assim a gente vai tendo a sensação agradável de estar descobrindo as coisas com o povo.
Tenho evitado escrever algo que não tenha feito. Nem carta sei fazer se não tiver algo importante para conversar. Meus livros são sempre relatórios, embora relatórios teóricos, feitos a partir da prática. Quem pretende trabalhar com esses relatórios deve estar disposto a recriar o que fiz, a refazer e não só copiar, a reinventar as coisas. Os elementos que vamos refletir são princípios válidos para quem trabalha com o povo, quem está metido com alfabetização de adultos ou participa de algum tipo de pastoral ou trabalho popular.
PRINCÍPIOS DO TRABALHO POPULAR
O primeiro princípio é ninguém está só no mundo. Enquanto educadore(a)s devemos estar muito convencido(a)s de uma coisa que é óbvia: ninguém está só no mundo. Parece uma constatação besta - constatação é aquilo que ninguém precisa pesquisar. Mas, é preciso ver que implicações se tira da constatação. O importante não é fazer uma constatação. Fazer constatação é fácil, basta estar vivo. O importante é encarnar essa constatação com um bando de conseqüências, de implicações.
A primeira conseqüência, sobretudo no campo da educação, é que, se ninguém está só, é porque os seres humanos estão no mundo com outros seres. E estar com outros significa necessariamente respeitar nos outros o direito de dizer a palavra. Aí, começa o embananamento para quem tem uma posição nada humilde, quem pensa que conhece a verdade toda. Para elas só tem um jeito – fazer a cabeça de quem não tem a verdade.
A implicação profunda e rigorosa que surge quando encarno que não estou só é exatamente o direito e o dever de respeitar em você o direito de você dizer a palavra. Isso significa então, que é preciso também saber ouvir. Na medida, em que eu parto do reconhecimento do teu direito de dizer a palavra, quando eu falo porque te ouvi, eu faço mais do que falar a ti, eu falo contigo. Mas, falar a ti só se converte no falar contigo, se eu te escuto. No Brasil tá cheio de gente falando prá gente, mas não com a gente. Faz 500 anos que o povo brasileiro leva porrete. Tudo isso tem a ver com o trabalho do educador(a): Numa posição autoritária, é evidente que o educador(a) fala ao povo, fala ao estudante.
O terrível é ver um montão de gente se proclamando de esquerda e continuar falando ao povo e não com o povo numa contradição extraordinária com a própria posição de esquerda. Porque o correto da direita é falar ao povo, enquanto o correto da esquerda é falar com o povo. Esse trequinho é a primeira conclusão que a gente tira quando percebe que não está só no mundo.
Quando a gente encarna e vive este não estar só no mundo está falando da metodologia popular. Esse modo de ver e de tratar é muito mais que um método – é uma concepção de mundo. É uma pedagogia. Pedagogia e não um método cheio de técnicas. A gente sabe muito mais as coisas quando aprendemos o significado dessa pedagogia do que quando se aplica uma técnica. As técnicas só se encarnam quando o princípio é respeitado.
Se o educador está disposto a viver com o educando uma experiência na qual o educando diz sua palavra ao educador e não apenas escuta a palavra do educador, a educação se autentica, tendo no educando um criador de sua aprendizagem. Esse é um princípio fundamental.
Uma segunda conseqüência do falar a e do falar com é que eu só falo com na medida em que escuto também. E eu só escuto na medida em que eu respeito, inclusive o que fala me contradizendo. Se a gente só escuta o que concorda com a gente... é exatamente o que está aí no poder. Quer dizer, desde que vocês aceitem as regras do jogo, a abertura prossegue. Se o povo brasileiro concordar que a abertura, a democracia deve ser assim, ela existe, senão... Gosto muito de anedotas, inclusive as anedotas chamada feias que são tão bonitas.
Quando era moço, me contaram uma estória que se deu com Henry Ford. Henry Ford reuniu seus técnicos e assessores e disse: vamos aqui discutir o modelo novo dos carros Ford. Então, os técnicos começaram: Sr. Henry, vamos dar um jeito de acabar com esses carros só pretos e feios; vamos tacar o carro marrom, verde, azul, mudar o estilo, fazer um negócio mais dinâmico. Quando deu 17 h o Henry Ford falou: agora em tenho um negócio. Vamos fazer o seguinte: amanhã, a gente se reúne aqui às cinco horas, para decidir esse negócio. No outro dia, às 16h45 os assessores estavam todos na sala. Às 16,50 h, a secretária de Ford entrou na sala e falou: senhores, o Sr. Ford não pode vir a essa reunião, mas pede que os senhores se reúnam; diz também que concorda com os senhores, desde que seja preta a cor dos carros.
Eu falo contigo quando sou capaz de te escutar. E se sou capaz, eu falo a ti. No falar a e no falar sobre (que significa falar em torno), falo a ti sobre a situação tal. Se me convenci desse falar com, desse escutar, meu trabalho vai partir sempre das condições concretas em que o povo está. Meu trabalho vai partir dos níveis, das maneiras e formas como o povo se compreende na realidade e nunca da maneira como eu entendo a realidade.
Parto de um exemplo concreto. Quando tinha 7 anos, já não acreditava que a miséria era punição de Deus. Isso faz muito tempo. Mas, vamos admitir que eu chegue para trabalhar, numa certa área cujo nível de repressão, opressão, espoliação do povo é tão grande que a comunidade, até por necessidade de sobrevivência coletiva, se afogue numa visão alienada do mundo. Nessa visão, Deus é o responsável por toda aquela miséria. Nesse nível de consciência, de percepção da realidade é preciso, acreditar que Deus é o responsável. Sendo Deus o responsável o problema passa a ter causa superior. É melhor acreditar que é Deus do que acreditar que não é, porque aí não se tem a obrigação de brigar, arriscando-se a morrer...
Esta é uma realidade que existe. Não se sabe como é que os jovens de esquerda não percebem esse treco! Então, não é possível chegar a uma área como essa e fazer um discurso sobre a luta de classe. Não dá mesmo ! É uma absoluta inconsistência teórico-científica. Fazer um troço desse, é ignorância da ciência. Um dia, vai chegar o negócio da classe. Mas, será impossível enquanto não desmontar a visão mágica, a compreensão mágica. Se houvesse a possibilidade da participação ativa, da prática política imediata, essa visão se acabaria. Porém, é sempre uma violência você querer esquecer que a comunidade ainda não tem a possibilidade de um engajamento imediato.
O que tem acontecido é a gente falar à comunidade e não com a comunidade. Você faz um discurso brabo, danado. E o resultado desse discurso? Cria mais medo; mete mais medo na cabeça da população. Quer dizer, o que a gente tem a fazer é partir exatamente do nível que a massa está. Diante desse fato, há duas possibilidades de errar: a) acomodar-se ao nível da compreensão da comunidade e passar a dizer que, na verdade, é Deus mesmo que quer isso; b) ou arrebentar com Deus e dizer que o culpado é o imperialismo.
Seria uma falta de senso dessa pessoa porque, isso é falta de compreensão do fenômeno humano, da espoliação e das raízes. É engraçado, se fala tanto em dialética e não se é dialético. (Dialética é o processo de conhecimento pelo qual se acerta o caminho, através de um processo de reflexão sobre a realidade ou a prática). O que será que pode acontecer na cabeça das pessoas: se Deus é um caboclo danado de forte, que criou todo esse treco o que é que pode gerar na cabeça dessas pessoas se a gente chega e diz que não é Deus? Vamos ter que brigar com uma situação feita por um ser tão poderoso como este e, ao mesmo tempo, tão justo. Essa ambigüidade que está aí significa pecado. Então, a gente mete mais sentimento de culpa na cabeça da massa popular.
Antes do golpe militar, lá no Nordeste, fui conversar com um grupo de camponeses. Em poucos minutos eles se calaram e houve um grande silêncio. Até que um deles falou:
- O senhor me desculpe, mas é o senhor que deve falar e não nós.
- Por que? Perguntei eu.
- Porque o senhor é o que sabe e nóis não sabemos.
- Aceito. Eu sei e vocês não sabem! Mas por que é que eu sei e vocês não sabem?
(Aceitei a posição deles em vez de me sobrepor à posição deles. Aceitei a posição deles, mas, ao mesmo tempo, indaguei sobre eles)
- Um deles respondeu:
- O senhor sabe porque foi à escola e nós não.
- Aceito. Fui à escola e vocês não foram. Mas, por que é que eu fui à escola e vocês não foram?
- Ah, foi porque seus pais puderam e os nossos não.
- Concordo. Mas por que meus pais puderam e os de vocês não puderam?
- Ah, o senhor pôde porque seus pais tinham condição, bom trabalho, bom emprego e os nossos não.
- Tá certo. Mas, por que os meus tinham e os de vocês não?
- Porque os nossos eram camponeses. Meu avô era camponês, meu pai era camponês, eu sou camponês, meu filho é camponês, meu neto vai ser camponês. (Aí, a concepção fatalista da história!).
- O que é ser camponês?
- Ah, é não ter nada, é ser explorado.
- Mas, o que é que explica isso tudo?
- Ah, é Deus! Deus quis que o senhor tivesse e nós não.
- Tá certo, concordo. Deus é um cara bacana, é um sujeito poderoso! Agora, eu queria fazer uma pergunta: quem aqui é pai? (Todo mundo era). Olhei para um e disse: Você tem quantos filhos? - Tenho seis, disse ele.
- Você seria capaz de botar 5 filhos aqui no trabalho forçado e mandar um prá Capital com comida, hotel, prá ele estudar e ser doutor, e os outros 5 morrendo no porrete e no sol?
- Não, não fazia isso não !
- Então, você que acha que Deus é poderoso, que é pai, ia tirar essa oportunidade de vocês? Será que pode? Houve um silêncio e por fim um falou:
- É não, não é Deus nada! É o patrão!
Seria idiotice minha se eu dissesse que era o patrão imperialista yankee. O cabra ia dizer o quê, onde mora esse hôme? A transformação social se faz com ciência, com consciência, bom senso, humildade, criatividade e coragem. É trabalhoso, não se faz na marra. O voluntarismo nunca fez revolução, em canto nenhum, nem o espontaneísmo. Transformação social implica em convivência com as massas populares e não a distância delas.
Um princípio que está ligado ao falar a e falar com é que ninguém sabe de tudo, nem ninguém ignora tudo. Isto equivale dizer que, em termos humanos, não há nem sabedoria absoluta, nem ignorância absoluta.
Um dia, no Chile, fui discutir com camponeses. Eles estavam inibidos para discutir comigo por que eu era doutor. Falei que não era. Peguei um giz, fui ao quadro e propus o seguinte jogo. Faço uma pergunta a vocês e se vocês não souberem, eu marco um gol. Em seguida, vocês fazem uma pergunta e se eu não souber, vocês marcam um gol. Eu vou dar o primeiro chute. Então, de propósito, perguntei um treco difícil, coisa de intelectual: eu gostaria de saber o que hermenêutica socrática? Ficaram rindo, não sabiam o que era isso. Marquei um ponto para mim. Na vez deles, alguém fez uma pergunta sobre semeadura. Eu não entendia pipocas! Perdi um ponto. Fiz a segunda: o que é alienação em Hegel? Dois a um. Me fizeram uma pergunta sobre praga. Foi uma senhora experiência, com empate de 10 a 10. Convenceram-se, no final do jogo, que de fato, ninguém sabe tudo e ninguém sabe nada.
Mas, essa verdade que aceitamos a nível teórico pelo intelecto (ninguém sabe tudo e ninguém sabe nada), a gente precisa viver. Todo mundo aqui sabe que não está só no mundo. Porém, é preciso viver a conseqüência disso, sobretudo quando dizemos que nossa opção é libertadora. O que é preciso é encarnar esse princípio quando a gente se aproxima da massa popular arrogantemente, elitistamente, para salvar a massa inculta, incompetente, incapaz! Essa é uma postura absurda, até porque não é científica. Há uma sabedoria que se constitui na massa popular, pela prática.
Mas, existe também outro equívoco que chamamos basismo: ou você está na base, o dia todo, a noite toda, mora lá, morre lá ou não dá palpite nunca! Isso é conversa fiada, não dá certo! Esse negócio de superestimar a massa popular é um elitismo às avessas. Não há porque fazer isso. Tenho claro que sou intelectual de mão fina. A sociedade burguesa em que me constitui como intelectual não me poderia ter feito diferentemente. Ou a gente é humilde para aceitar uma verdade histórica que é o nosso limite histórico ou, nos suicidamos. E eu não vou me suicidar porque é dentro dessa contradição que me forjo como um novo tipo de intelectual. E tenho uma contribuição a dar a massa popular.
O fundamental é que minha contribuição só é válida, na medida em que sou capaz de partir do nível em que a massa está e, portanto, aprender com ela. Se não for assim, a contribuição de nada vale ou é muito pouca. Independente das técnicas, o que vale é o princípio: estar com o povo e não simplesmente para ele e jamais sobre ele. Isso é o que caracteriza a postura libertadora.
Outro princípio fundamental é a capacidade de assumir a ingenuidade do educando, seja ele universitário ou popular. É comum a gente defrontar-se com ingenuidades, com perguntas que a gente não entende. E não entende porque quem faz a pergunta não consegue fazer. Imaginem que pedagogo seria eu, se ao ouvir uma pergunta mal formulada, desorganizada ou sem sentido, eu respondesse com ironia. Que direito teríamos nós de dizer que somos educadores que pensam em liberdade e respeito?
Às vezes, é complicado. Tenho feito assim quando não consigo realmente entender a pergunta: vou repetir a pergunta; presta atenção pra ver se eu não estou distorcendo o espírito da tua pergunta; se eu distorcer, você me diz. Então, repito a pergunta reformulando de maneira mais clara como eu penso que entendi. Não raro as pessoas afirmam: era isso que eu queria perguntar, só que não estava sabendo. Imaginem se eu dissesse à pessoa não, você é um idiota! Com que autoridade? Que sabedoria tenho eu para fazer isso? Ao contrário, é preciso seguir o princípio absolutamente fundamental: ao assumir a posição ingênua do educando, você supera essa posição com ele e não sobre ele.
Se é fundamental assumir a ingenuidade do educando é absolutamente indispensável assumir a criticidade do educando diante da nossa ingenuidade de educador. Esse é o outro lado da medalha para o educador auto-suficiente. Para ele só o educando é ingênuo, o educador nunca é. No fundo, ingênuo é o educador porque a ingenuidade se caracteriza pela alienação de si mesmo ao outro. A alienação se faz pela transferência de si em alguém para o outro: eu não sou ingênuo, o outro é que é ingênuo. Transfiro para ele a minha ingenuidade. Só posso criticar, se eu também acredito que também sou ingênuo; porque não há nenhuma absolutização da ingenuidade, nem absolutização da criticidade. O educador que não faz esse jogo dialético, contraditório e dinâmico, não trabalha pela libertação.
Discutir esses princípios e posturas pedagógicas, tudo isso é política. A educação é tanto um ato político, quanto um ato político é educativo. Não é possível negar, de um lado, a politicidade da educação e, do outro, a educabilidade do ato político. Nesse sentido, todo partido é sempre educador. Tudo depende que educação é essa que esse partido faz, depende com quem ele está, a favor de que está o educador ou a educadora. Se educação é sempre um ato político e a(o) educadore(a)s são seres políticos, importa saber a favor de quem fazemos política, qual nossa opção.
Clareada nossa opção, a gente tem que ser coerente. Porque não adianta o discurso revolucionário com uma prática reacionária. Não adianta participar, uma semana, de um curso sobre metodologia popular e, em seguida, ir à favela salvar os favelados com a nossa ciência, em lugar de aprender com os favelados a ciência deles. Não é o discurso que diz se a prática é válida; é a pratica que diz se o discurso é válido ou não. Quem julga é sempre a prática, não o discurso. De nada adianta um lindo sermão seguido de uma prática reacionária. De nada adianta uma proposta revolucionária, se nossa prática é pequeno-burguesa.
O trabalho concreto exige capacitação em vários campos. Porém, o fundamental é a coerência com nossa opção política. Por causa dela corre-se risco. Educação libertadora ou é aventura permanente ou não é criadora. E não há criação sem risco; e o que temos a fazer é reinventar as coisas.
Nós brasileiros temos que combater, em nós, a marca trágica do autoritarismo que vem dos primórdios do nosso nascimento. O Brasil foi inventado autoritariamente e autoritariamente continua. Não é de espantar que a abertura e a democracia se façam de forma autoritária.
Pe. Antônio Vieira, num belo sermão, durante a guerra contra os holandeses, dizia: em nenhum milagre Cristo gastou mais tempo, nem mais trabalho teve do que em curar o endemoniado mudo. E esta tem sido a grande enfermidade do nosso País: o silêncio ao qual o povo sempre foi submetido. O que Vieira não disse é que, neste País, quem tem sido mudo é a classe popular, as classes trabalhadoras. Não são mudas porque não fizeram nada. Elas têm feito sua rebelião constante. As lutas populares, neste País, têm sido grandiosas! Só que a historiografia oficial, primeiro esconde as lutas, quando conta distorce e, por fim, o poder autoritário faz tudo prá gente esquecer.
Os intelectuais desse País são autoritários, inclusive quando somos de esquerda. Nosso autoritarismo se transformou na nossa arrogância, na sabedoria que a gente fala, nas exigências de leitura que fazemos, no nosso comportamento durante os cursos e seminários. Cita uns 40 livros e manda o aluno ler uns 200 capítulos a mais do que os 40 livros.
10. Reaprender de novo
Se você pretende começar um trabalho com grupos populares, esqueça-se de quase tudo o que lhe ensinaram. Dispa-se, fique nu e comece a se vestir de povo. Esqueça-se da falsa sabedoria e comece a reaprender de novo. Aí é que a gente descobre a validade do que já se sabe – ao testar o que a gente sabe com o que o povo está sabendo.
Um grupo de jovens fazia uma experiência de alfabetização numa comunidade de favelados, durante a construção de um barraco. Depois sumiram. Quando reapareceram me disseram: Paulo, a coisa mais formidável que a gente tem pra contar é que, por mais que a gente tivesse lido você e conversado com você, a gente cometeu um erro tremendo. A gente tinha botado na cabeça que o povo queria ser alfabetizado. Como a gente falou que alfabetização era importante, o povo passou seis meses com a gente, falando daquilo por causa da gente. Quando aumentou a intimidade o povo, dando risada, falou “nós nunca quisemos isso”! O grupo de jovens era um pessoal bacana. Tinha lido tudo meu, tinha discutido comigo um semestre. Eu também fui enrolado pela equipe. O povo queria outra coisa, mas a equipe tinha transferido ao povo a necessidade da alfabetização. Num País de 500 anos de dominação é fácil aceitar a insinuação de um intelectual sobre uma necessidade.
11. Pacientemente impacienteO educador com a opção libertadora tem que viver pacientemente impaciente. Significa viver a relação entre a impaciência e a paciência. Não é possível viver só impaciente como muita gente, querer a revolução para amanhã. A impaciência se manifesta, por exemplo, na afirmação as massas já têm o poder, no Brasil: só falta o Governo. A impaciência mete na cabeça da gente um desenho da realidade que não existe. Só pode existir na cabeça de alguém fantasioso, não na realidade econômica, política e social do Brasil. A impaciência significa a ruptura com a paciência. Romper com um desses pólos, é romper em favor de um deles.
NOTA: Esta reprodução tem como base a publicação PARA TRABALHAR COM O POVO editada pelo Centro de Capacitação da Juventude, Vila Alpina, Zona Leste de São Paulo, SP, 1983.
Nos dias 30 de setembro, 1 e 2 de outubro, ocorreu o Encontro Microrregional "Metodologia da Educação Popular e Comunicação" na Pousada Pau Brasil, Praia de Ubu, no Espírito Santo.
A representante da equipe pedagógica da Recid/Camp, Terezinha Maria Woelffel Vergo, afirmou que a assessoria se deu na intervenção sobre a educação popular.
Cerca de 30 participantes, entre educadores da Recid e lideranças dos movimentos sociais, estavam presentes.
A 4ª Ciranda de Educação Popular acontece de 25 a 29 de maio, no Centro de Formação do CIMI, em Luziânia – Goiás, com o tema Sonhos que tecem a rede: muitas vozes e mãos construindo a comunicação que queremos.