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Qui, 08 de Dezembro de 2011 17:35

Os textos e o contexto

Escrito por  Gilson Lucena
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Sob uma arvore no Sertao Vivo Sob uma arvore no Sertao Vivo Recid Ceara

 

“Sou passarinho eu sou, ô!

Eu vou cantando, vou, ô!

Vou procurando um raminho

Bem sequinho, pra fazer bem gostozinho

O nosso ninho de amor!”.

(“Ninho de Amor”. - Zé Vicente)

Se você quiser saber como foi o terceiro módulo de formação da Rede de Educação Cidadã no Ceará, RECID-CE seguem aqui três dicas. a) prepare o seu coração para o amor. Amor, neste caso, é a vida radicalmente em primeiro lugar!; b) conheça o projeto “Sertão Vivo” na fazenda Aroeira, vizinha a Vila Guassussê, no município de Orós, no Centro Sul cearense; c) escute com os ouvidos do coração da alma a música “Ninho de Amor” de autoria do Poeta, compositor e intérprete cearense, Zé Vicente. Foi essa música que deu o tom de nosso encontro, cujo tema, “A Mística e a Militância na Educação Popular”, sob o tom de um Sol Maior, embalou-nos na Rede e no ritmo da educação cheia de esperança. Foi neste embalo que nós tiramos do papel o décimo segundo principio do Projeto Político Pedagógico da Rede de Educação Cidadã – o PPP da RECID – vivenciando, sentindo e pertencendo. Vivenciamos uma integração de nível superior com a natureza. Fomos realmente um. As árvores – Aroeiras, Juazeiros, Tamarineiros, Jucás, Cajaranas, etc. – nos deram o aconchego de suas sombras. Foram o palco dos artistas do sertão. Os passarinhos. – Rolinha fogo pago, Bem-te-vis, pintassilgo, azulão, sabiás e tantos outros que eu há anos não os via, alguns eu nem os conheci, misturavam-se no coro com Zé Vicente e João do Crato. E nós, claro! As noites nos traziam de presente o esperado, cantado e místico “Vento do Aracati”. A coreografia das árvores, sob a luz e um céu estrelado e por metade da noite a luz da deusa das noites sertanejas. A lua sempre linda, sempre mística, sempre saudade. A mulher mais amada do sistema solar.

Três textos ajudaram-nos na reflexão e no diálogo com o contexto. Ajudaram aqui é um termo apropriado, pois as experiências individuais e coletivas, os sonhos, a sintonia e a maturidade da equipe da RECID-CE, deixam tudo mais fácil. Há, hoje, ainda, e isto foi para nós, significativo, o mais importante, porque tocou a todas (os), poder aprender da experiência do “Sertão Vivo”. Conceitos que temos discutido na RECID como ideal, no “Sertão Vivo” é realidade. Autonomia lá não é e não se parece com patologia. É sinônimo e decorrência da descentralização. Esta é visível e concreta. Planejamento não é apenas adjetivado de participativo. Ninguém diz, mas qualquer um ver. A avaliação não é tribunal de julgamento e lugar onde uns são acusados e outros acusadores. É parte esperada e permanente de um processo maior. E tudo isto não seria possível sem uma gestão coletiva, democrática e transparente que nem faz questão de ter por sobrenome, compartilhada. Vivemos momentos de extrema grandeza para a RECID-CE que encontrou referenciais éticos e testemunhos eloquentes para confirmar sua trajetória em busca de uma educação libertadora. A Memória de que fala a diretriz quatro do princípio doze do PPP é algo celebrado na liturgia da vida. É significativo e providencial encerrar este processo formativo deste ano da RECID-CE no “Sertão Vivo”. Pois nada pode “Ser Tão Vivo” e tão pedagogicamente exemplar para este momento de perdas, de dúvidas, incertezas e de instabilidades que vive a RECID em âmbito nacional que aprender com o “Sertão Vivo”. Ouso dizer, com a RECID-CE, que sabe enfrentar as dificuldades e, “celebrar e contemplar a vida e a luta, com seus limites, avanços e aprendizados”, (PPP, 12, 5) partilhando as conquistas coletivamente.

Sonho e desejo que a RECID-NE, a exemplo da RECID-CE, se permita vivenciar o que vivenciamos nestes quatro dias na família “Sertão Vivo. Neste tempo de exigências e nesta mudança de época, muitos são os que não têm rumo. Não têm referências, e já não sabem aprender com os passarinhos, com as árvores, com o vento e com as pedras. Por isto já não aprendem com o seu semelhante, pois não o reconhecem como seu parceiro na pronúncia do mundo. Pude, nestes quatro dias de grande afetividade, além de dá um jejum na saudade, confirmar uma antiga convicção. Vivemos neste momento histórico e cheio de incertezas e desafios, uma crise em dupla dimensão. Primeiro uma crise das e nas instituições. Tenho dito que não concebo vida humana e humanizada sem instituições. São elas que dão apoio, sustentação e sentido à vida humana em sociedade. Segundo e que decorre da primeira, vivemos uma crise sem precedentes de lideranças. Eu também não concebo libertação, utopia e salvação possíveis sem líderes. Estes devem ser democráticas, humanas e humildes. Devem ser capazes de elogiar para que sua crítica tão necessária tenha valor pedagógico e reconciliador. Assim são as lideranças do Sertão Vivo e da RECID-CE. Os textos continuam importantes, mas devem brotar e dialogar com os contexto. São estes valores que vi e testemunho na RECID-CE e no “Sertão Vivo”. Ouso dizer que aprendemos todos. Porque, na concepção freireana de educação, e é ela que nos orienta nesta caminhada, quem ensina, se realmente ensina, ao ensinar aprende. E quem aprende, se realmente aprende, ao aprender, ensina. Isto parece-me ter sido a realidade deste terceiro módulo. Uma troca de saberes, de sabores e experiências. No entanto, e isto é importante ressaltar, o nosso encontro, mesmo sendo no “Sertão Vivo”, só foi este momento de prazer e de aprendizado porque é conseqüência de uma vivência cotidiana. Da RECID-CE e do “Sertão Vivo”. Agradeço a Deus e aos companheiros e companheiras que viveram comigo estes momentos mágicos. Encerro recorrendo ao PPP mais uma vez. No seu princípio doze, na sua diretriz três, nos convida a “construir e cultivar relações de amorosidade, na escuta e no diálogo atentos e capazes de perceber e respeitar a riqueza da diversidade das manifestações culturais e religiosas”. Esta diretriz parece-me resumir o que foi nosso encontro e o que é nossa realidade.

 

Curitiba, 07 de Dezembro de 2011.

 

João Santiago. Juntamente com Zé Vicente contribuiu nas reflexões e na execução do encontro da RECID-CE no Sertão Vivo nos dias 02, 03 e 04 de Dezembro. Participou também da reunião do coletivo da RECID-CE no dia 01 de Dezembro.

 

Gilson Lucena

Gilson Lucena

Educador da Recid Ce, articulador da Região Centro Sul do Estado

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